Juliana's profileFilosofia, Psicologia, P...PhotosBlogListsMore ![]() | Help |
|
January 28 Flávio Brayer - Da criança cidadã ao fim da infânciaSabemos que uma das críticas mais constantes feitas à escola contemporânea é sua incapacidade de tratar, no seu interior, a diversidade de demandas, de interesses, de motivações; seu atraso em relação à emergência de novos contextos sociais, culturais, econômicos; seu aspecto autoritário, onde os "jovens" não são ouvidos nem respeitados em suas solicitações. Junte-se a isto o fato de ela se encontrar, hoje, numa situação de "déficit de promessa": em troca das horas enfandonhas passadas diante de um professor; dos meses e anos de cursos, tarefas, obrigações, leituras, avaliações… o que a escola oferece? Houve um tempo em que a passagem pela escola representava a promessa de inserção profissional, para uns, de acesso aos postos da administração, para outros, de capitalização simbólica e distinção social ou simplesmente de formação do "espírito". Mas estas promessas já não são inteiramente realizáveis e, por exemplo, a relação entre escolaridade e empregabilidade tornou-se dramaticamente frágil e instável. Daí por que qualquer experiência escolar que invista minimamente no "respeito" aos alunos, na escuta de sua "palavra", no atendimento de suas urgentes necessidades sociais, culturais, identitárias é logo vista como um caminho desejável e a ser perseguido, encontrando imediata recepção nos meios que, por razões muito diversas, são sensíveis aos problemas de uma sociedade particularmente complexa e às voltas com crescentes problemas de exclusão e desigualdade. A ausência de diálogo e de democracia são, por assim dizer, temas transversais neste tipo de inquietação e crítica, já que a escola seria uma espécie de território do mesmo: conteúdos iguais para todos e em detrimento de seus interesses, um modelo único de racionalidade, uma tábua de valores etnocêntricos, um sistema de avaliação homogeneizante; em suma, sua impotência para tratar com o plural, o diferente, o diverso. Flávio Brayner - Da criança cidadã ao fim da infânciaAcrescente-se a tudo isso - em si surpreendente - o fato de que, à decadência da família patriarcal, à ascensão das mulheres à condição de, muitas vezes, mantenedoras e provedoras do sustento familiar, as relações entre pais e filhos se "democratizaram": os filhos são constantemente solicitados a opinarem e decidirem sobre temas que, até há pouco, estavam reservados à responsabilidade adulta. Mas, numa época de "crepúsculo do dever", as antigas atribuições dos adultos também se enfraqueceram: desresponsabilização em relação aos filhos, resistência a assumir e viver a maturidade, culto de uma juventude prolongada expresso em termos de uma obssessiva corporeidade saudável, alimentação balanceada, cirurgias estéticas, consumo incontrolável de medicamentos "regeneradores", cosméticos "anti-rugas"… indicadores de um individualismo narcísico que podemos interpretar como a manifestação, no adulto, do egocentrismo habitualmente associado à criança. Flávio Brayner - Da criança cidadã ao fim da infânciaVivemos hoje uma situação particularmente constrangedora que é a superexposição mediática da intimidade, desvelando aquelas experiências que, até há pouco, eram exclusivas do domínio privado: a agonia final do moribundo, todas as formas do prazer sexual, a intimidade afetiva de casais transformada em jogos televisivos etc; interpondo entre eu e a consciência que tenho de mim mesmo, um olho público invasivo e inquiridor. Instaurou-se um voyeurismo social ampliado que banalizou a intimidade a um ponto em que a definição de identidades subjetivas e psíquicas fica ameaçada, inaugurando, ao mesmo tempo, um generalizado hábito de consumo de egos postiços. Por outro lado, uma hipervalorização desta mesma intimidade tem produzido um processo de exagerada privatização da vida, de hiperindividualismo, de "umbilicalismo" narcisista cuja contraface é o desinvestimento público, o desinteresse civil, o abandono e a demissão política deixada a cargo dos "profisionais", com evidentes riscos para a continuidade daquilo que entendemos por democracia e cidadania. A indiferenciação, ou melhor, o apagamento de fronteiras antes entendidas como relativamente exclusivas é, talvez, uma marca bem característica de nossa modernidade tardia. Fronteiras nacionais, culturais, identitárias, sexuais, comerciais, lingüísticas estão em vias de desaparecimento e, com elas, aquelas que delimitavam os espaços do público e do privado, aqueles até então não completamente intercambiáveis da visibilidade e o da intimidade. É verdade que todo este movimento vai de par com a afirmação de localismos identitários; com a radicalização dos pertencimentos étnicos ou nacionais, com a ressurgência de fundamentalismos e integrismos de toda ordem etc. Mas o apagamento de fronteiras vai bem além daquelas assinaladas entre o público e o privado, entre a intimidade e a Cidade, e somos constrangidos a aceitar que ele atinge um domínio cujas conseqüências ainda estamos longe de avaliar corretamente e que, com certeza, recairão sobre tudo o que imaginamos pertencer ao "pedagógico": aquelas que separavam o adulto da criança e que, de uma certa forma, nos acostumamos a pensá-las como "natural". Joshua Meyrowitz nos mostra que um tal embaralhamento de fronteiras só foi possível porque "nestes últimos trinta anos, a imagem e o papel da criança mudaram consideravelmente. A infância enquanto período de vida protegida e ao abrigo das preocupações praticamente desapareceu", e não hesita em nomear esta tendência de "fim da infância", essencialmente ligada à nossa passagem de uma cultura livresca à uma cultura televisiva. Flávio Brayner - Da criança cidadã ao fim da infância(...) este conjunto de fenômenos recentes que têm provocado uma preocupante usura do espaço público: a transformação de cidadãos em simples consumidores que precisam ser constantemente "produzidos" através de uma máquina de convencimento e sedução, que coloca a mercadoria no centro das políticas de administração do desejo; acrescente-se, ainda, a transformação da política em espetáculo, o descrédito social dos partidos políticos que deixaram, há muito, de representar aquilo que chamávamos de "correntes de opinião", o desenvolvimento de uma tecnoburocracia que tende a substituir o espaço político da discussão e da visibilidade por uma administração puramente "instrumental" da sociedade… e veremos que os riscos que correm a democracia e a própria idéia de cidadania são perigosamente presentes e vão muito além da discussão em torno dos "excluídos". January 27 Lou Andreas SaloméReduzi meus deveres a apenas um: perpetuar minha liberdade. O casamento e seu séquito de possessão e ciúme escravizam o espírito. Espero que chegue o tempo em que nem o homem, nem a mulher sejam tiranizados pelas fraquezas mútuas. January 21 Amyr KlinkUm homem precisa viajar. Por sua conta, e não apenas por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. |
|
|