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October 31 Aves em migração - Antônio Teixeira e CastroEstou lúcido. Estou vivo como as aves em migração. Começo por amar a realidade... nunca declinei a vida. Mesmo que tudo esteja contaminado e sem reverso, é a vida que nos povoa; é a vida por inteiro que nos vive! Sobre o autor: Nasceu no Porto - Portugal, em 1964. Poeta e colabora em diversas publicações portuguesas. Sombras - Edgar Alan PoeHavia em torno de nós e dentro de nós coisas das quais não é possível dar conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensação de sufocamento, ansiedade; e sobretudo, aquele terrível estado de existência que as pessoas nervosas experimentam quando os sentidos estão vivos e despertos, e as faculdades do pensamento jazem adormecidas. Leonor - Edgar Alan PoeSou oriundo duma raça caraterizada pelo vigor da fantasia e pelo ardor da paixão. Os homens chamaram-me louco; mas ainda não está resolvido o problema - se a loucura é ou não a suprema inteligência - se muito do que é gloriosos - se tido o que é profundo - não tem origem numa doença do pensamento - em modalidades do espírito exalatadas a custas das faculdades gerais.
Aqueles que sonham de dia sabem muitas vezes coisas que escapam àqueles que somente sonham a noite.
Nas vagas visões obtêm relances de eternidade é, quando despertam, estremecem ao verem que estiveream mesmo à beira do grande segredo. Penetram sem leme, nem bússola, no vasto oceano da "luz inefável"; e de novo, como os aventureiros do geógrafo núbio, agressi sunt mare tenebrarum, quid in eo esset exploraturi. Apontamento - Fernando PessoaA minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia louça no vaso. Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há, debruçam-se do parapeito da escada. E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. Não se zanguem com ela. São tolerantes com ela. O que era eu um vaso vazio? Olham os cacos absurdamente conscientes, mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária. Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali. Sobre o autor: Fernando Pessoa (1888 - 1935) nasceu em Lisboa. Considerado um dos mais importantes poetas modernistas. Criou heterônimos famosos como Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro Campos. Aniversário - Álvaro de CamposNo tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, de ser inteligente para entre a família, e de não ter as esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é terem vendido a casa, é terem morrido todos, é estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, por uma viagem metafísica e carnal, como uma dualidade eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! As tias velhas, os primos diferente, e tudo era por minha causa, no tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó Meu Deus, Meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o fôr. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na Algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... Sobre o autor: Heterônimo de Fernando Pessoa (1888/1935), Álvaro de Campos nasceu em Tavira e se formou engenheiro. No início foi influenciado pelo Simbolismo, enveredou para o Futurismo e acabou por refletir uma forma pessimista da existência, como no poema Tabacaria. Amor - Clarice LispectorAmor é quando é concedido participar um pouco mais. Amor é a grande desilusão de tudo mais. Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter inclusive amor É a desilusão do que se pensava que era amor. Amor não é prêmio por isso não envaidece. Sobre a autora: A escritora nasceu na Ucrânia, mas viveu no Brasil desde os dois meses de idade. Suas obras mais famosas incluem Laços de Família, A Paixão Segundo G.H. e A Hora da Estrela. Nos textos, Clarice explora a solidão e a incomunicabilidade humana. Alma humana - Fernando PessoaA alma humana é um manicômio de caricaturas. Se uma alma pudesse revelar-se com verdade E nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas, definidas Seria, como dizem, da verdade o poço. Mas um poço sinistro, cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser. Ranho da subjetividade. Eis a alma. Sobre o autor: Fernando Pessoa (1888 - 1935) nasceu em Lisboa. Considerado um dos mais importantes poetas modernistas. Criou heterônimos famosos como Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro Campos. Agenda - Ana Cecília Souza BastosDecididamente não me interessam as vãs soluções, nem as posições corretas — essas respostas que a gente busca na opinião informada, antes de conferir o próprio desejo; nem os dados que o banco ou a polícia já guardam por ofício, nem como envelhecemos igual — por força não da idade, mas do hábito. De todas as perguntas, só quero reter a centelha.
Desejo saber a que horas do dia encontro no céu este azul de agora.
Desejo saber a que horas da vida há este sorriso nos olhos dos filhos. Desejo saber quanto dura a paixão pela vida. Sobre a autora: Psicóloga e professora da UFBa, ela escreve desde a adolescência. Fez uma edição de autor aos 22 anos e andou publicando textos esparsos. Em 1999, Ana Cecília conquistou o prêmio Copene/Fundação Casa de Jorge Amado,com o livro Uma Vaga Lembrança do Tempo. Açafrão - Carlos MachadoUm ou dois poemas de sentido oculto, um galho seco de açafrão e a necessidade de ficar sóbrio sobre as cinzas. -— Eis todo o meu saber. Se me perguntarem por quê?, vou jurar que não sei, que não sou desses que sabem. Talvez um dia eu tenha pensado conhecer os pontos cardeais, as fases da lua e frases da rua: mas o Sol é sábio e ensina todos os dias sua lição de incerteza. Uma vez, no oco branco da noite, pensei que o amanhecer me traria pássaros fáceis e obedientes. Falhei!— O ferro quente do erro, o ferro fértil do erro. Sobre o autor: Carlos Machado, é jornalista, nascido em Muritiba (BA) em 1951. Embora escreva poesia há longo tempo, é inédito em livro. Edita um boletim literário semanal, poesia.net, distribuído por e-mail. www.avepalavra.kit.net. Abismo - Nilson OliveiraQuero absorver intensamente toda a tristeza do mundo. As esperanças não alcançadas, os filhos que não nasceram, o pranto de mães desconsoladas. Quero sentir profundamente toda a dor. A dor de não ter amor, não ter paz, não ter futuro. Pelo trabalho rotineiro de cada dia, a comida sem graça e fria, a desigualdade, a injustiça, o olhar distante, toda a dor da infelicidade. Quero aguardar a catástrofe silenciosamente, com o meu cansaço estafante e descomedido, pelo excesso das palavras, das mentiras, das ilusões, dos pesadelos, tantos. O horizonte se distanciando... longe... longe. Quero chorar muito... quero chorar muito, sem nenhum constrangimento, sem parar, sem parar. Quero ser tragado pela realidade e me esconder na sombra da minha insignificância, para que num momento distante - se houver - eu possa despertar para um mundo agradável e melhor. October 29 As origens da empatia - Daniel GolemanAssim que Hope, de apenas nove meses, viu outro bebê levar um tombo, ficou com os olhos cheios d´água e engatinhou até sua mãe, procurando consolo, embora não fosse ela que tivesse levado o tombo. E Michael, com um ano e três meses, foi buscar seu ursinho de pelúcia para entregá-lo ao amigo Paul, que chorava; como Paul continuava chorando, Michael se agarrou no cobertozinho "de segurança" do amigo. Esses pequenos atos de simpatia e solidariedade foram observados por mães treinadas para registrar tais incidentes de demonstração de empatia. Os resultados do estudo sugerem que as origens da empatia podem ser identificadas já na infância. Praticamente desde o dia em que nascem, os bebês ficam perturbados quando ouvem outro bebê chorando - uma reação que alguns encaram como o primeiro indicador da empatia que se desenvolverá na idade adulta. Psicólogos do desenvolvimento infantil descobriram que os bebês são solidários diante da angústia de outrem, mesmo antes de adquirirem a percepção de individualidade. Mesmo poucos meses após o nascimento, os bebês reagem a uma perturbação sentida por aqueles que estão em torno deles, como se esse incômodo estivesse acontecendo neles próprios, chorando ao verem que outra criança está chorando. Em torno de um ano, começam a compreender que o sofrimento não é deles, mas de outro, embora ainda pareçam confusos sobre o que fazer. Numa pesquisa feita por Martin L. Hoffman, da Universidade de Nova Iorque, por exemplo, uma criança de um ano trouxe a própria mãe para consolar um amigo que chorava, ignorando que a mãe do amigo também estava no recinto. Essa confusão se vê também quando crianças de um ano imitam a angústia de outras, possivelmente para melhor compreender o que elas estão sentindo, por exemplo, se outro bebê machuca os dedos, um bebê de um ano põe os seus dedos na boca, para ver se também doem. Ao ver a mãe chorar, um bebê enxugou os próprios olhos, embora não tivessem lágrimas.
Essa mímica motora, como é denominada, é o significado técnico original da palavra empatia, como pela primeira vez foi usada, na década de 20, por E. B. Tichener, psicólogo americano. Esse sentido é pouco diferente de sua introdução original em inglês, do grego empátheia, "entrar no sentimento", termo inicialmente usado por teóricos da estética para designar a capacidade de perceber a experiência subjetiva de outra pessoa. A tese de Tichener era de que a empatia vinha de uma espécie de imitação física da angústia de outra pessoa, que então invoca os mesmos sentimentos em nós. Ele procurou uma palavra distinta de simpatia, algo que sentimos pelo que o outro está vivenciando, sem contudo, sentir o que o outro está sentindo.
A mímica motora desaparece de repertório dos bebês por volta dos dois anos e meio, quando eles percebem que o sofrimento de outra pessoa é diferente do deles, e então podem melhor consolá-los.
Uma série de estudos feito no Instituto de Saúde Mental (EUA), mostrou que grande parte dessa diferença em interesse empático tinha a ver com a maneira como os pais educavam seus filhos. Elas constataram que as crianças eram mais empáticas quando a educação incluía chamar fortemente a atenção para a aflição que o mau comportamento delas causava nos outros: "Veja como você a deixou triste" em vez de "Isso foi mal feito". Também descobriram que a empatia das crianças é igualmente moldada por verem como os outros reagem quando alguém mais está aflito; imitando o que vêem, as crianças desenvolvem um repertório de reação empática, sobretudo na ajuda a outras pessoas angustiadas.
Goleman, Daniel, Inteligência emocional: a teoria revolucionária que define o que é ser inteligente - Rio de Janeiro - Editora Objetiva, 2001 As origens da Empatia - Daniel Goleman
Empatia e ética: As raízes do altruísmo - Daniel Goleman“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. Este é um dos versos mais famosos da literatura inglesa. O sentimento de Johnn Donne fala do cerne da ligação entre empatia e envolvimento: a dor do outro é nossa. Sentir com o outro é envolver-se. Neste sentido, o oposto de empatia é antipatia. A atitude empática empenha-se interminavelmente em julgamentos morais, pois os dilemas morais envolvem vítimas em potenciais. Deve-se mentir para evitar ferir os sentimentos de um amigo? Deve-se manter o compromisso de visita a um amigo doente ou, ao contrário, aceitar um convite de última hora para jantar? Até quando devem ser ligados os aparelhos hospitalares que mantêm a vida de alguém? Essas questões morais são colocadas pelo pesquisador de empatia Martin Hoffman, que afirma que as raízes ética estão na empatia, pois é o sentir empatia com as vítimas potenciais - alguém que sofre, que está em perigo, ou que passa por privação, digamos - é, portanto, partilhar de sua aflição que leva as pessoas a agirem para ajudá-las. Além dessa ligação imediata entre empatia e altruísmo nos encontros pessoais, Hoffman sugere que a própria capacidade de afeto empático, de colocar-se no lugar de outra pessoa, leva as pessoas a seguir certos princípios morais.
Hoffman vê o um desenvolvimento natural da empatia a partir da infância. Como vimos, com um ano de idade, a criança se sente aflita quando vê outra cair e começar a chorar; sua relação é tão forte e imediata que ela põe o polegar na boca e enterra a cabeça no colo da mãe, como se fosse ela a machucada. Depois do primeiro ano, quando os bebês se tornam conscientes de que são distintos dos outros tentam ativamente consolar um outro que chora, oferendo-lhe ursinhos de pelúcia, por exemplo. Já aos dois anos as crianças começam perceber que os sentimentos dos outros não são os seus e, co isso, se tornam mais sensíveis a indícios que revelam que o outro de fato sente; nessa altura, podem, por exemplo. reconhecer que o orgulho de outra criança pode significar que a melhor maneira de ajudá-la a lidar com suas lágrimas e não chamar indevida atenção para elas.
No fim da infância, surgem os mais elevados níveis de empatia, pois as crianças são capazes de entender a aflição que está além de um acontecimento específico de aflição permanente. Nesse ponto, as crianças podem perceber as circunstâncias de todo um grupo, como os pobres, os oprimidos, os marginalizados. Essa compreensão, na adolescência ia, pode reforçar convicções morais centradas na vontade de aliviar o infortúnio e a injustiça.
A empatia é o suporte de muitas facetas de julgamento e a ação morais. Uma delas é a "raiva empática", que Stuart Mill descreveu como "o sentimento natural de retaliação... tornado pelo intelecto e a simpatia aplicável... aos sofrimentos que nos ferem por ferir outros"; Mill chamou isso de "guardião da justiça". Outro exemplo em que a empatia conduz à ação moral é quando um circunstante é levado a intervir a favor de uma vítima, maior a probabilidade de vir e intervir. Há algum indício de que o nível de empatia que as pessoas sentem também afeta seus julgamentos morais. Por exemplo, estudos na Alemanha e nos Estados Unidos constataram que, quanto mais empáticas as pessoas, mais fortalecido, para elas, o princípio moral segundo o qual a riqueza deva ser distribuída conforme a necessidade de cada um. October 25 A vida de Galileu - Bertolt BrechtNão há sentido na nossa miséria; fome não é prova de fortaleza, é apenas não ter comido!... Esforço não é vergar as costas e arrastar, não é mérito!... A miséria não é condição das virtudes, meus amigos!... E não me venham com a beleza das riquezas que fomos capazes de produzir!...
Se a nossa gente fosse abastada e feliz, aprenderia as virtudes da abastança e da felicidade. Mas hoje, as virtudes dos pobres nascem... da pobreza!
Eu abomino isso! Sim, abomino! Ou vocês querem que eu minta a nossa gente?
Sobre o autor: Bertold Brecht (1898-1956), nascido em Augsburgo. Escritor e dramaturgo alemão, além de grande teórico teatral. Desde menino escrevia poesias de forte conteúdo social. Foi perseguido pelos nazistas pelo seu comunismo militante. A verdade - Cruzeiro SeixasComo posso saber se o que vejo desta janela é de fato a paisagem que vejo?... Há muito, finjo acreditar em coisas que o homem teima em trocar pela fragilidade do vidro. Deus existe?... Deus não existe?... Ambas as coisas são verdade ao mesmo tempo. Pergunto-me e pergunto-lhe se a verdade existe mais que um milésimo de segundo. Nada é eterno. A eternidade passa depressa como a ciência. Sobre o autor: Cruzeiro Seixas, pintor e poeta, nome essencial vinculado ao Surrealismo em Portugal. Em parte por ligação direta com as artes plásticas tem sido um poeta, infelizmente, pouco percebido. A suposta existência - Carlos Drummond de AndradeComo é o lugar quando ninguém passa por ele? Existem as coisas sem ser vistas? O interior do apartamento desabitado? A pinça esquecida na gaveta? Os eucaliptos à noite no caminho três vezes deserto? A formiga sob a terra no domingo? Os mortos, um minuto depois de sepultados? E nós, sozinhos no quarto sem espelho. Sobre o autor: Nascido em 1902 em Itabira do Mato Dentro - MG, faleceu no Rio de Janeiro em 1987. Chegou a se formar em Farmácia. Seu rigor na literatura beira a obsessão. Escreveu poesias, crônicas, contos e ensaios. Traduziu autores importantes para o português. A poesia - Manoel de BarrosA poesia, a poesia está guardada nas palavras É tudo que eu sei Meu fardo é não entender quase tudo Sobre o nada eu tenho profundidades Eu não cultivo conexões com o real Para mim poderoso não é aquele que descobre o ouro Poderoso pra mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas. A morte devagar - Martha MedeirosMorre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições. Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar. Wladimir MaiakovskiFiz ranger as folhas de jornal abrindo-lhes as pálpebras piscantes. E logo, de cada fronteira distante, subiu um cheiro de pólvora, perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos anos, nada de novo há no rugir das tempestades. Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras, havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas. Humano demasiadamente humano - NietzscheSe o cristianismo tivesse razão com suas teses do Deus vingador, da propensão universal ao pecado, da predestinação pela graça e do perigo de uma condenação eterna, seria um sinal de fraqueza de espírito e falta de caráter não se fazer padre, apóstolo ou missionário e não trabalhar com o temor e tremor exclusivamente para sua própria salvação; seria absurdo perder assim de vista a vantagem eterna em troca da comodidade temporária. Supondo que tenha fé, o cristão de todos os dias é uma figura lamentável, um homem que realmente não sabe contar até três e que, de resto, justamente por causa de sua incapacidade mental de calcular, não mereceria ser castigado tão duramente como lhe promete o cristianismo. |
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