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    May 13

    Aos que virão depois de nós - Bertold Brecht


    Eu vivo em tempos sombrios.
    Uma linguagem sem malícia é sinal de
    estupidez,
    uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
    Aquele que ainda ri é porque ainda não
    recebeu a terrível notícia.
    Que tempos são esses, quando
    falar sobre flores é quase um crime.
    Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
    Aquele que cruza tranqüilamente a rua
    já está então inacessível aos amigos
    que se encontram necessitados?
    É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
    Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
    Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
    Por acaso estou sendo poupado.
    (Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
    Dizem-me: come e bebe!
    Fica feliz por teres o que tens!
    Mas como é que posso comer e beber,
    se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
    se o copo de água que eu bebo, faz falta a
    quem tem sede?
    Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
    Eu queria ser um sábio.
    Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
    Manter-se afastado dos problemas do mundo
    e sem medo passar o tempo que se tem para
    viver na terra;
    Seguir seu caminho sem violência,
    pagar o mal com o bem,
    não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
    Sabedoria é isso!
    Mas eu não consigo agir assim.
    É verdade, eu vivo em tempos sombrios!   
     
    Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
    quando a fome reinava.
    Eu vim para o convívio dos homens no tempo
    da revolta
    e me revoltei ao lado deles.
    Assim se passou o tempo
    que me foi dado viver sobre a terra.
    Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
    deitei-me entre os assassinos para dormir,
    Fiz amor sem muita atenção
    e não tive paciência com a natureza.
    Assim se passou o tempo
    que me foi dado viver sobre a terra.

    Vocês, que vão emergir das ondas
    em que nós perecemos, pensem,
    quando falarem das nossas fraquezas,
    nos tempos sombrios
    de que vocês tiveram a sorte de escapar.
    Nós existíamos através da luta de classes,
    mudando mais seguidamente de países que de
    sapatos, desesperados!
    quando só havia injustiça e não havia revolta.
    Nós sabemos:
    o ódio contra a baixeza
    também endurece os rostos!
    A cólera contra a injustiça
    faz a voz ficar rouca!
    Infelizmente, nós,
    que queríamos preparar o caminho para a
    amizade,
    não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
    Mas vocês, quando chegar o tempo
    em que o homem seja amigo do homem,
    pensem em nós
    com um pouco de compreensão. 

    Perguntas de um operário letrado - Bertold Brecht


    Quem construi Tebas, a das sete portas?
    Nos livros vem o nome dos reis.
    Mas foram os reis que transportaram as pedras?
    Babilónia, tantas vezes destruída.
    Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
    Da Lima dourada moravam seus obreiros?
    No dia em que ficou pronta a Muralha da China, para onde
    Foram os seus pedreiros? A grande Roma
    Está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
    Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
    Só tinha palácios
    Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
    Na noite em que o mar a engoliu
    Viu afogados gritar por seus escravos.

    O jovem Alexandre conquistou as Índias.
    Sozinho?
    César venceu os gauleses.
    Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
    Quando a sua armada se afundou, Filipe de Espanha
    Chorou. E ninguém mais?
    Frederico II ganhou a Guerra dos Sete Anos.
    Quem mais a ganhou?
    Em cada página uma vitória.
    Quem cozinhava os festins?
    Em cada década um grande homem.
    Quem pagava as despesas?

    Tantas histórias.
    Quantas perguntas.

    As boas ações - Bertold Brecht

     
    Esmagar sempre o próximo
    não acaba por cansar?
    Invejar provoca um esforço
    que inchas as veias da fronte.
    A mão que se estende naturalmente
    dá e recebe com a mesma facilidade.
    Mas a mão que agarra com avidez
    rapidamente endurece.
    Ah! que delicioso é dar!
    Ser generoso que bela tentação!
    Uma boa palavra brota suavemente
    como um suspiro de felicidade!

    De que serve a bondade - Bertold Brecht


    De que serve a bondade
    Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
    Aqueles para os quais eles são bons?

    De que serve a liberdade
    Se os livres têm que viver entre os não-livres?

    De que serve a razão
    Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
    Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
    Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
    Ou melhor:que a torne supérflua!

    Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
    Para criar um estado de coisas que liberte a todos
    E também o amor à liberdade
    Torne supérfluo!

    Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
    Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
    Um mau negócio.