Juliana's profileFilosofia, Psicologia, P...PhotosBlogListsMore Tools Help

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    November 04

    Cazuza, "Ideologia"


    Eu vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou.
     
    November 02

    Darcy Ribeiro


    Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.

    Guerra do Vietnã


    Texto retirado do site PORTAL MILITANTE - O PORTAL REVOLUCIONÁRIO BRASILEIRO

    Em 1961, os EUA iniciam seu envolvimento no conflito entre o Vietnã do Norte (comunista) e o do Sul, que havia se acirrado dois anos antes. O apoio norte-americano ao regime anticomunista do Sul se amplia até a completa intervenção militar a partir de 1965. Em 1973, com o cessar-fogo, os norte-americanos contabilizam a maior derrota de sua História. Em 1976 o Vietnã está reunificado. A participação dos EUA nessa guerra é mais uma escalada da disputa entre o capitalismo norte-americano e o socialismo soviético pela hegemonia mundial. A intervenção norte-americana se dá após o envolvimento gradual em uma região que há muito vivia conflitos anticolonialistas e divisões internas. Em 1946, a Liga pela Independência (Vietminh), criada na luta contra o domínio francês na Indochina, forma um Estado separatista no norte do Vietnã sob a liderança do dirigente comunista Ho Chi Minh  (1890-1969). Tem início então a guerra entre a França e o Vietminh.

    Em 1949 os franceses estabelecem o Estado do Vietnã no Sul, instalam como rei Bao Dai e, no ano seguinte, legitimam a independência. O Vietminh não reconhece a decisão e reivindica para si o controle sobre todo o país. Esse conflito acaba em maio de 1954 com a derrota francesa na batalha de Diem Bien Phu. O acerto feito na Conferência de Genebra, no mesmo ano, impõe a retirada das tropas da França e divide o Vietnã em dois: o do Norte, sob o regime comunista de Ho Chi Minh, e o do Sul, que se torna monarquia independente, encabeçado por Bao Dai.

    Por exigência dos EUA, o acordo marca para julho de 1956 um plebiscito em que o povo vietnamita decidiria sobre a reunificação. Os norte-vietnamitas aceitam a divisão, por acreditar que a unificação sob o governo comunista seria referendada nas urnas. Mas no sul, o primeiro-ministro Ngo Dinh Diem, anticomunista fervoroso, dá um golpe de Estado em outubro de 1955, instalando uma ditadura militar contrária à reunificação. As forças armadas sulistas passam a receber dinheiro e treinamento militar dos EUA. Apoiada por Ho Chi Minh, a resistência comunista do Sul cria em 1960 a Frente de Libertação Nacional (FLN), tendo com braço armado o Exército Vietcong.

    O presidente norte-americano John Kennedy (1917-1963) reage e envia para o Vietnã do Sul 15 mil “conselheiros militares”, que criam comandos do Pentágono na região. A ruptura entre o governo sulista e o povo cresce. Monges budistas queimam-se vivos como tochas humanas em praça pública para chamar a atenção mundial sobre a intolerância da ditadura. Em 1963, Diem é assassinado, no primeiro de uma série de golpes militares que geram o caos político e levam os EUA a intervir de vez na guerra.

    Escalada norte-americana – A efetiva intervenção militar norte-americana é decidida em 1964, por Lyndon Johnson (1908-1973), recém-chegado à presidência após o assassinato de Kennedy. Marca o início da escalada da guerra. O pretexto é o suposto ataque norte-vietnamita a navios norte-americanos no Golfo de Tonquim. O Vietnã do Sul recebe reforço de tropas dos EUA, que ao mesmo tempo iniciam sistemáticos ataques aéreos ao Norte. O Exército Vietcong resiste com táticas de guerrilha aos sofisticados armamentos ocidentais, entre eles bombas de fragmentação, napalm e desfolhantes químicos.
     
    Em 31 de janeiro de 1968, guerrilheiros e soldados norte-vietnamitas lançam a ofensiva do Tet (Ano Novo vietnamita). Invadem a embaixada dos EUA em Saigon, atacam quase todas as bases norte-americanas e marcham sobre as principais cidades do Sul. As forças norte-americanas e sul-vietnamitas respondem com ferocidade sem igual em toda a guerra, provocando a morte de 165 mil vietnamitas e 2 milhões de refugiados. O governo norte-americano enfrenta crescentes protestos pacifistas em casa. Mesmo assim o presidente Richard Nixon  (1913-1994) ordena o ataque à trilha de Ho Chi Minh – rede de estradas, pontes camufladas e sistemas de comunicação que alimenta a FLN com armas e munições da China e da URSS.

    Reunificação – Os intensos bombardeios sobre Hanói em 1972 e o bloqueio de portos norte-vietnamitas também não dão resultado. Os EUA acabam por aceitar o Acordo de Paris, em 1973, que estabelece o cessar-fogo. São convocadas eleições gerais no Vietnã do Sul e libertados os prisioneiros de guerra. Os EUA perdem 45.941 soldados, têm 800.635 feridos e 1.811 desaparecidos em ação. Não há estatísticas seguras sobre as baixas vietnamitas, mas ultrapassam 180 mil. Com a retirada das tropas norte-americanas, o confronto se transforma em guerra civil entre vietcongs e forças do governo do Sul. Em 1976, depois de três décadas de guerra e arruinados economicamente, os dois Vietnãs se reunificam sob o nome de República Socialista do Vietnã, com capital em Hanói. 

    Salete Aguiar


    Não!
    Não sou eu neste retrato, amigo.
    Esta é a imagem de um outro,
    morto
    há muito.
    November 01

    Castelo


    Antes jovem lutava pelo bem comum, hoje luta pelo bem de consumo.
    October 31

    Salete Aguiar


    Hoje contei
    cento e dezoito vidas diferentes,
    todas possíveis em meu mesmo corpo.
    Todas vivi um pouco ou quase nada,
    e o que sobrou foi essa miscelânea
    de indecisões e dúvidas crescentes.

    October 27

    Provocações - Luís Fernando Veríssimo


    A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.
    A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.
    Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.
    Foram lhe provocando por toda a vida.
    Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.
    Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.
    Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.
    Estavam lhe provocando.
    Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.
    Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.
    Terra era o que não faltava.
    Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.
    Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.
    Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.
    Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:
    - Violência, não!

    Sobre o autor:
    Nasceu em 26 de setembro 1936, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Filho do grande escritor Érico Veríssimo, iniciou seus estudos no Instituto Porto Alegre, tendo passado por escolas nos Estados Unidos quando morou lá.
    October 26

    Modéstia - Arthur Schopenhauer


    Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas.
    O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?
    October 19

    Frase citada no Café Filosófico por Márcia Tiburi


    Schopenhauer diz: "A filosofia não é prescrição, ela não é receita, portanto ela não serve para resolver os problemas, ela serve para colocar os problemas".
    October 13

    Frases citadas no Café Filosófico por Luís Felipe Pondé


    .: (...) o ser humano é uma coisa para qual não existe solução. Eu acho que isso é uma das coisas mais importantes para pessoas modernas ou pós-modernas como nós tomarmos consciência disso.  Uma das razões, uma das provas que o ser humanos não é um bicho e tem uma solução, é o fato como no mercado das soluções polupulam soluções. A última grande solução que está no mercado é que se você lançar no universo boas energias ele vai devolver pra você coisas boas. Essa é a última solução barata que tem no mercado.
     
    .: Como diz a tradição dos monges antigos, você vai para o deserto para entrar em contato com seus próprios demônios, olha aí a idéia do auto-conhecimento. Não existe nenhuma forma de auto-conhecimento a sério se você não entra em contato com seus demônios. Se você acha que não tem demônios é porque não tem nem um milímetro de auto-conhecimento porque o processo de auto-conhecimento é sempre um mergulho nos próprios demônios.

    .: O filósofo americano do século XIX chamado Emerson fala assim (...)  que a época que ele vivia era uma época em que a vida, o mundo e a sociedade se transformou numa espécie de lago congelado. Esse lago congelado tem uma fina casca de gelo sobre ele e o que a gente faz é deslizar sobre essa fina casca de gelo (...).  Quando você está deslizando sobre uma fina casca de gelo se você andar devagar você morre, se você parar o chão racha.
    O que o autor queria dizer é que o mundo que a gente vive demanda de você tamanha agilidade, tamanha aceleração, tamanha leveza, tamanha superficialidade que qualquer profundidade pode colocar sua vida em risco. (...) Deslizar pelo lago congelado demanda de você uma agilidade cada vez maior, uma competência cada vez maior, uma eficácia cada vez maior. E se você não fizer esse movimento na realidade o chão racha e você cai no lago congelado. 
    (...) Como você pode sobreviver deslizando continuamente sobre um lago congelado?
    (...) Uma das únicas chances que você tem de pensar sério nas coisas e passar a ter consciência é quando simplesmente você cansa de fazer o jogo. A consciência estaria associada a possibilidade que você tem de parar de fazer o jogo e correr o risco de diminuir a velocidade. E se você diminui a velocidade, você corre evidentemente o risco do chão rachar e no momento que o chão racha é aí que você pode ter a experiência da vertigem que acontece no devir do auto-conhecimento.
     
    .: O conhecimento só vale a pena, quando ele pode colocar a sua vida em risco. Por sua vida em risco no sentido de levar você ter uma percepção que leve você ter uma vertigem, qu leve você perceber a profundidade das coisas.

    .: O surto da eficácia é essa obsessão que você tem pela eficácia o tempo todo, pelo sucesso... O interessante no sucesso é o seguinte, ele nunca é o bastante. E se você estiver feliz com o seu sucesso por definição você está começando a não fazer sucesso, porque você está parando. Não parem nunca, continuem a subir, continue a avançar, agregue valor, continue a se tornar capaz, cada vez mais capacitado. Esse processo.

    .: O que é um ser humano curado? O que é um ser humano bem resolvido? É no mínimo uma pessoa que você deve duvidar dela, justamente porque ela passa a idéia de ser bem resolvida.
     
    .: Existem coisas na vida muito mais sérias do que a felicidade. Quando você é uma pessoa que fica buscando a felicidade o tempo todo, seguramente você vai parecer uma pessoa banal. Você vai parecer uma pessoa risível. Se você ficar procurando a felicidade o tempo todo, você tem grande chance de logo começar a consumir soluções de R$ 1,99.

    .: Todo mundo que você ama tem o poder de mandar em você (...). Todo mundo que você ama  pode fazer um inferno na sua vida. (...). A única forma de você ser livre das pessoas é você não amar ninguém. A gente quer um amor que seja uma mala que tem roda. Porque se for uma mala sem roda e você tiver que carregar aquilo, você não quer. O veneno nasce porque você está querendo construir uma vida legal, ótima, que a sua relação seja muito boa e acredita naquela idéia abstrata de amar e respeitar o outro mutualmente. (...) O amor é uma confusão, que desorganiza tudo.
     
    Luiz Felipe Pondé é filósofo, pós-doutor em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv e professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião, do Depto de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da FAAP. Articulista do jornal Folha de S.Paulo, é autor, entre outros títulos, de O Homem Insuficiente (Edusp), Crítica e Profecia, filosofia da religião em Dostoievski (ed. 34), Conhecimento na Desgraça (Edusp) e Do Pensamento no Deserto (Edusp).

    Credo - Consuelo de Castro

     
    Dou esmola a bêbado, me benzo na porta de igreja, me emociono com beijo de novela e morro de inveja das coxas da Madonna. Acredito em fidelidade conjugal, tesão sem prazo de validade e milagre de santo expedito. Que dinheiro não traz felicidade, o importante é competir, o fracasso é pedagógico, beleza não põe a mesa, dias melhores virão e o que passou passou. Tem pílula que emagrece dormindo, creme que tira ruga na primeira passada, arte e democracia emanam do povo e em seu nome são exercidas. Muito em breve não haverá mais um só analfabeto em todo o território nacional, uma só menina vendendo o corpo pra comprar cocada, um só recém nascido morto em berçário ou casebre, um único velho maltratado em asilo público, um único jovem sem oficio, baile e salário e a tortura nas delegacias será coisa dos anais da história, acredito no fim da miséria, da arrogância e do desprezo. Que fechando os olhos a dor passa, o telefone toca e o amor chega . E todos os homens que batem em mulher serão ridicularizados em público e terão seus nomes publicados em dossiês municipais e até bairro a bairro, em caso de megametrópole. Acredito no que me ensinaram a acreditar e no que me desensinaram. No que foi prometido e no que não foi. No que se cumpriu e no que ficou na intenção ou nem isso. Acredito no que quero, quando quero e só se quero. Porque cínica ou crédula no meu coração mando eu. E mais do que tudo acredito no que me ensinou o maestro Mignone no primeiro dia de aula de canto orfeônico: se a gente canta o hino nacional com a mão no coração, a pátria mãe será sempre gentil e jamais nos deixará ao desamparo.

    Sobre a autora:
    Consuelo de Castro, nasceu em Araguaia - MG, em 1946. Grande dramaturga e escritora brasileira. Se formou em Ciências Sociais na FFLCH - UPS. Escreveu ‘Caminho de Volta’, 'Marcha à Ré', 'À flor da Pele', entre outras peças.
    October 12

    Trecho de "Bartlet’s Familiar Quotations" - Martin Niemöller

     
    Eles começaram perseguindo os comunistas, e eu não protestei, porque não era comunista.
    Depois, vieram buscar os judeus, e eu não protestei, porque não era judeu.
    Depois ainda, vieram buscar os sindicalistas, e eu não protestei, porque não era sindicalista.
    Aí, vieram buscar os homossexuais, e eu não protestei, porque não era homossexual.
    Aí então, vieram buscar os ciganos, e eu não protestei, porque não era cigano.
    E depois, vieram buscar os imigrantes, e eu não protestei, porque não era imigrante.
    Depois, vieram me buscar.
    E já não havia ninguém para protestar!

    Sobre o autor:
    Líder religioso alemão, Martin Niemöller viveu o holocausto na Alemanha, foi prisioneiro num campo de concentração nazista.
    October 07

    Sustentabilidade e crise


    EXCELENTE este vídeo que um amigo me recomendou, vale muito a pena ver, sobre sustentabilidade e crise do atual sistema de produção mundial (crise financeira por tabela, daí entendemos que a crise no sistema financeiro é só a ponta do iceberg...): www.unichem.com.br/videos.php
    O link acima é para uma versão dublada em português, a versão original (em inglês) está em www.storyofstuff.com
    Outro video sensacional sobre o mesmo tema é o documentário The Corporation, inspirado no fantástico livro homônimo, de Joel Bakan. Ele está disponível na íntegra no Youtube, em inglês, dividido em 23 partes, também vale muito a pena ver: http://br.youtube.com/view_play_list?p=FA50FBC214A6CE87
    O video deste documentário já está disponível em DVD no Brasil, dublado ou legendado, mas o livro por enquanto só em inglês mesmo.

    Abraços e boa reflexão.
    October 04

    O viajante - Nietzsche


    Trecho retirado do livro Humano demasiadamente humano.

    Aquele que quiser, mesmo que fosse somente em certa medida, chegar à liberdade da razão, não tem de se sentir na terra de outra forma senão como um viajante – e nem mesmo para um périplo para um objetivo final: pois como viajante – não o tem. Mas se proporá a observar bem e manter os olhos abertos para tudo o que se passa realmente no mundo; é por isso que não pode apegar muito intensamente seu coração a nada em particular; é preciso que tenha sempre nele alguma coisa de viajante que tem prazer pelas mudanças e pela passagem.
     
    Sem dúvida, semelhante homem terá noites ruins quando deverá estar cansado e encontrar fechada a porta da cidade que deveria lhe oferecer repouso: pode ser, que, além disso, como no oriente, o deserto se estenda até essa porta, que os animais selvagens uivem ora longe, ora perto, que um vento violento se levante, que salteadores lhe roubem os animais de carga. Então talvez a espantosa noite haverá de descer sobre ele como um segundo deserto no deserto e seu coração ficará cansado de viajar. Então talvez aurora se levante sobre ele, ardente como uma divindade em estado de ira, que a cidade se abra, e ele há de ver talvez no rosto dos habitantes mais ainda deserto, sujeita, velhacaria, insegurança do que do lado de fora das portas – e o dia será sempre pior que a noite.
     
    Isso pode acontecer ás vezes ao viajante; mas em seguida vêm, em compensação, as manhãs deliciosas  de outras regiões e de outras jornadas, nas quais vê desde o despontar do dia, nas neblinas dos montes, os coros das musas avançar dançando ao seu encontro, depois, mais tarde, quando pacificamente no equilíbrio da alma das manhã, ao passear sob as árvores, cair a seus pés, de seu topo e de suas copas, uma quantidade de coisas boas e claras, os presentes de todos os espíritos livres que estão em sua casa na montanha, na floresta e na solidão e, que , precisamente como ele, à sua maneira ora alegre, ora refletida,, são como viajantes e filósofos. Nascidos dos mistérios da manhã, pensam em que pode dar ao dia, entre a décima e a décima segunda batida do relógio, um rosto tão puro, tão penetrado de luz, tão radiante de claridade – eles procuram a filosofia de antes do meio-dia.

    Lolita - Vladimir Nabokov


    .:  Dois anos antes, com a ajuda de um inteligente confessor de língua francesa (a quem, num mnomento de curiosidade metafísica, eu havia submetido um opaco ateísmo protestante em troca de uma cura papista à moda antiga), ainda tivera a esperança de deduzir de meu senso de pecado a existência de um Ser Supremo.
    Naquelas manhãs frígidas em que a geada engalanava as ruas de Quebec, o bom padre vertia sobre mim toda a sua ternura e compreensão. Sou-lhe infinitivamente grato, assim como à grande instituição que ele representava. Mas eu era incapaz de transceder o simples  fato humano de que, fosse qual fosse o consolo espiritual que pudesse obter, fossem quais fossem as eternidades litofânicas que me esperavam no Além, nada poderia fazer minha Lolita esquecer a imunda lascívia que eu lhe infligira. A menos que me seja provado - a mim como sou agora, que nas dobras infinitas do tempo de nada importa que uma menina americana chamada Dolores Haze tenha sido privada e de sua infância por um maníaco, a menos que isso possa ser provado (e, se puder, então a vidaé uma piada), não vejo nenhuma cura para minha desgraça senão o paliativo melancólico, e de um efeito muito local, da arte articulada.  
    Como diz um velho poeta: "Este senso moral dos mortais é o tributo/ A pagar pelo senso de mortal beleza".
     
    .:  Eu te amei, Era um monstruoso pentápode, mas como te amava. Era despresível, brutal, torpe - tudo isso e muito mais, mais je t´aimais, je t´aimais! E houve momentos em que sabia como você se sentia, e era um inferno sabê-lo, minha menina querida. Minha pequena Lolita, minha corajosa Dolly Schiller!
    Lembro certas ocasiões (icebergs no paraíso) em que, saciado dela - após fabulosas e dementes investidas que me deixavam exausto, o corpo listrado de azul na luz que penetrava pelas persianas do motel -, eu a tomava nos braços com (enfim) um mudo gemido de ternura humana (sua pele brilhando com reflexos de neon, seus cilios cor de fuligem emaranhados, seus olhos sérios e cinzentos mais vazios do que nunca - para todos os efeitos uma pequena paciente recém-saída da sala de operação, atordoada (ainda anestesia); e a ternura, penetrando mais fundo, transformava-se em vergonha e desespero, e eu embalava a leve e longínqua Lolita nos meus braços de mármore, e gemia nos seus cálidos cabelos, e a acariciava a esmo implorando mudamente seu perdão e, no auge dessa onda de ternura tão humana, tão sofrida e abnegada (com minha alma literalmente pairando sobre seu corpo nu, prestes a arrepender-se), de repente, ironicamente, horrivelmente, o desejo voltava a crescer - e "ah, não", diria Lolita com um suspiro dirigido aos céus, e no instante seguinte a ternura e a listras azuis se partiam em mil pedaços.
     
    .:  Agora, contorcendo-me de dor e declaterando contra minha própria memória, reconheço que naquela ocasião, como em outras semelhantes, eu sistematicamente cuidava de ignorar os sentimento de Lolita apenas para aliviar minha vil consciência.
     
    .:  (...) pouco a pouco, durante nossa singular e animalesca coabitação, a mente convencional de Lolita foi se dando conta de queaté msmo a mais miserável das vidas em família era preferível àuqela paródia de incesto - que, afinal de contas, era o que eu tinhademelhor a oferecer à pobre criança abandonada.
    October 01

    Frases citadas no Café Filosófico por Tales Ab`Saber


    .: O desejo não cabe no casamento. 

    .:  O fato de uma pessoa ter uma vida sexual ativa não que dizer que elas estão se constituindo como sujeitos sexuais.  Todos sabemos que o processo da maturação sexual é longo e trabalhoso, e algumas  pessoas que nunca conseguem, diga-se de passagem. Muitas pessoas estão beijando e beijando, transando e transando e qualquer coisa assim,  tem uma sexualidade simbólicamente pobre, inclusive pode nem ser sexual, aí no sentido de uma experiência de uma sexualidade que implique o sujeito integralmente, que o constitua na experiência. Muitas as pessoas não estão vivendo uma vida sexual. Podemos encontrar no consultório um homem de 32 anos que disse "agora sim  eu sei o que é a ordem sexual, agora eu sei o que é gozar,  e o que é amar", um homem que tinha transada várias vezes, mas nunca vivido isso.  Há uma diferença entre o ato e a ação e isso se tornar sujeito, entre isso se tornar experiência objetiva.

     
    Tales Ab`Saber é Mestre em Artes e Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor da Escola da Cidade e pesquisador do programa de Psicopatologia NAIPPE/USP.
    September 28

    Wood Allen


    .: Discordo de Freud. Não acho que a inveja do pênis seja exclusiva das mulheres.

    .: Deus não existe e, se existe, não é muito confiável.

    .: É agradável, de tempos em tempos, tentar imaginar o que teria sido a existência se Deus tivesse conseguido um orçamento e roteirista melhores.

    .: Fiz um curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em vinte minutos. Tem a ver com a Rússia.
     

    A história da loucura - Foucault


    .: A décima parte aproximadamente das prisões feitas em Paris (fim do século XVIII), com destino ao Hospital Geral, diz respeito aos "insanos", homens "em demência", pessoas de "espírito alienado", "pessoas que se tornaram inteiramente loucas".

    .: Uma palavra assinala-a - simboliza-a quase -, uma das mais freqüentes que se encontrarm nos livros dos internamento: "furioso". "Furor", como veremos, é um termo técnico de jurisprudência e da medicina; designa de modo preciso uma das formas da loucura. Mas no vocabulário do internamento ele diz muito mais e muitos menos que isso. Alude a todas as formas de violência que espacam à desfinição  rigorosa do crime e à sua apreensão jurídica: o qu evida é ua espécie de região indiferenciada da desordem - desordem do espírito -, todo  o domínio obscuro de uma raiva ameaçadora quesurge aquém de uma possível condenação. Noção confusa para nós, talvez, mas suficientemente clara para ditar o imperativo policial e moral do internamento. Internar alguém dizendo que um "furioso", sem especificar se é doente ou criminoso, é um poderes que a razão clássica atribui a si mesma, na experiência que teve da loucura.

    .: T. Monro, médico de Bethleem desde 1783, traçou  as linhas gerais de sua prática para a Comissão de Inquérito das Comunas:

    Os doentes devem ser sangrados o mais tardar até o fim do mês de maior, conforme o tempo que fizer; após a sangria, devem tomar vomitatórios uma vez por semana, durante um certo número de semanas. Após o quê, os purgamos. Isso foi praticado durante anos antes de mim, e me foi transmitido por meu pai; não conheço prática melhor.

    Lolita - Vladimir Nabokov


    .: (...) não estou nem um pouco preocupado com o que possa chamar de "sexo". Qualquer um tem condições de imaginar esses elementos de animalidade. Atrai-me m objetivo mais elevado: aprender, de uma vez por todas, a perigosa magia das ninfetas.

    .: Na Sicília, as relações sexuais entre pai e filha são aceitas como algo natural, e a menina que delas participa não é encarada com desaprovação pela sociedade que pertence.

    A disposição da lei romana segundo a qual as meninas podiam se casar aos doze anos foi adotada pela Igreja e ainda se mantem em vigor, de forma mais ou menos tácita, em certos estados americanos. Não há nada de errado, dizem ambos os hemisférios quando um brutamontes de quarenta anos, abençoado pelo pároco local e inteiramente alcoolizado, despe duas roupas dominicais encharcadas de suor e penetra até o cabo em sua jovem noiva. "Em certas cidades, como St. Louis, Chicago e Cincinatti, o clima temperado e estimulante [segundo uma velha revista desencavada na biblioteca desta prisão] faz com que as meninas amadureçam por volta do fim do décimo segundo ano de vida". Dolores Haze havia nascido a menos de quinhentos quilômetros da estimulante Cincinatti. Nada mais fiz do que obedecer à natureza, sou o mais fiel de seus cães. Por que esse horror que não consigo me desvenciliar? Será que a deflorei? Sensíveis senhoras membros do júri, nem mesmo fui seu primeiro amante.
    September 23

    Budismo - Edilson Botto


    O Budismo é uma das religiões mais antigas da humanidade, o budismo é uma religião ateísta, pois não prega a existência de um deus, tendo sido criado no século VI a.c., pelo príncipe hindu Sidarta Gautama (563-483 a.C.), ou simplesmente Buda.

    Embora seja complexa, na vida de Buda, distinguir os fatos reais das lendas, o príncipe Sidarta teria nascido no norte da Índia, em uma família nobre, filho do rei Suddhodana e da rainha Maya. Logo após seu nascimento foi levado ao templo para ser apresentado aos sacerdotes, lá um sábio chamado Ansita, previu que o bebê seria um poderoso rei ou um mestre espiritual que ajudaria a humanidade a se libertar de seus sofrimentos. Pretendendo evitar a segunda opção o rei levou o pequeno Sidarta para o palácio e o cercou de uma vida de luxo, longe das questões filosóficas, espirituais e da realidade da vida fora dos portões do palácio. Entretanto, o príncipe após ouvir vários comentários sobre as misérias sofridas pelo seu povo, tem sua curiosidade despertada e consegue fugir para a cidade, onde pelaprimeira vez, tem contato com o sofrimento da população.

    Chocado e em profunda crise existencial, aos 29 anos decide abandonar tudo e passa a se dedicar à busca da solução para o sofrimento humano.

    Suas primeiras tentativas foram realizadas através da mortificação do corpo, como contraposição à vida de luxos e prazeres que tinha desfrutado até então. Porém, isto não resolveu a questão, e ele chegou ao seu conceito de O Caminho do Meio: "buscar uma forma de vida disciplinada o suficiente para não chegar à completa indulgência dos sentidos, pois, assim a pessoa passa a ser dominada excessivamente por preocupações menores, e nem a autoflagelação, que turva a consciência
    e afasta a pessoa do convívio dos seus semelhantes."
    Gautama prossegue seu caminho, buscando a resposta para sua indagação, quando acontece um grande momento de sua vida. Diz a lenda que ao sentar-se debaixo de um figueira para meditar, o demônio Mara, que é a representação de todas as coisa mundanas, resolve tentá-lo, argumentando a banalidade de sua procura, mas Sidarta, consciente de seus objetivos, não se deixa enganar. Mara então, preocupada com a divulgação dos conhecimentos de Sidarta, sugere que ele vá logo ao
    Nirvana (estado de consciência superior além do mundo físico) e abandone as pessoas à sua própria sorte, mas, o rapaz não cede à tentação e resolve ficar e ajudar as pessoas na busca da felicidade.

    Por fim, Mara resolve fazer sua última tentativa e envia sua três filhas: Desejo, Prazer e Cobiça, que apresentam-se como mulheres cheias de ardor e ávidas de dar e receber prazer, e como mulheres em diferentes idades (passado, presente e futuro). Porém, já tendo atingido um estágio de consciência superior, através de uma evolução psicológica e espiritual, Sidarta passa por mais esta experiência e transforma-se definitivamente no Buda, que quer dizer em sãnscrito, o iluminado, ou "aquele que sabe", ou ainda, "aquele que despertou". Notem aqui a semelhança com a passagem bíblica onde Jesus foi tentado três vezes pelo demônio.

    Buda deixou uma contribuição inestimável à humanidade, seus oitenta e quatro mil ensinamentos são chamados de sutras cujo mais importante é o Sutra Lótus, o equivalente à Bíblia cristã. O budismo procura levar os homens à superação do sofrimento e ao Nirvana, através da disciplina mental e de atitudes corretas perante a
    vida, pois pela lei do carma, as ações das pessoas determinam o seu futuro, assim sendo, atitudes construtivas levam a um futuro promissor. Cabe aqui ressaltar que, enquanto na maioria das religiões cristãs o paraíso é um lugar circunscrito, no budismo o Nirvana é um estado de espírito, um sentimento de paz e plenitude, que cada homem deve buscar através dos seus próprios caminhos.

    O Budismo tem quatro grandes fundamentos:

    A existência da dor - O nascimento, a idade, a morte e os desejos são sofrimentos;

    A origem da dor é o desejo e o afeto - As pessoas buscam prazeres que não duram muito tempo e buscam alegria que leva a mais sofrimento;

    O fim da dor - só é possível com o fim do desejo;

    A quarta verdade - que prega que a superação da dor só pode ser alcançada através de oito passos:

    Compreensão correta: a pessoa deve aceitar as Quatro Verdades e os oito passos de Buda;
    Pensamento correto: A pessoa deve renunciar a todo prazer através dos sentidos e o pensamento mal;
    Linguagem correta: A pessoa não deve mentir, enganar ou abusar de ninguém;
    Comportamento correto: A pessoa não deve destruir nenhuma criatura, ou cometer atos ilegais;
    Modo de vida correto: O modo de vida não deve trazer prejuízo a nada ou a ninguém;
    Esforço correto: A pessoa deve evitar qualquer mal hábito e desfazer de qualquer um que possua;
    Desígnio correto: A pessoa deve observar, estar alerta, livre do desejo e da dor;
    Meditação correta: Ao abandonar todos os prazeres sensuais, as más qualidades, alegrias e dores, a pessoa deve entrar nos quatro graus da meditação, que são produzidos pela concentração.

    "As portas da iluminação se abrirão para todos, indiscriminadamente, com uma única condição: a fé e a compaixão" fé como sentimento que nos une através da essência, e compaixão como atividade que nos une através da prática e vivificação desta essência." Sutra Lotus